Bate-papo com o fotógrafo de surfe William Zimmermann

GM: Quando e Como você começou a trabalhar com fotografia?

WZ: Minha relação com a fotografia começou em 2013, na época eu trabalhava como vendedor em uma loja na Guarda do Embaú, já estava lá há 10 anos e queria algo em que eu pudesse ficar mais tempo no mar, na praia e que me desse uma renda. Não conseguia pensar em nada até que uma noite em casa assisti a um documentário sobre fotógrafos de surfe e, na hora pensei: "É Isso"! Moro na praia, conheço os surfistas, tenho experiência no mar, vou ser fotógrafo! Comecei a pesquisar sobre equipamento e tal, e levei um susto com os preços. Continuei na loja, fiz acordo trabalhista e consegui comprar uma câmera semi profissional, uma lente e uma caixa estanque. Fui pra água e achei que já era fotógrafo porque tinha um equipamento legal. Minha primeira sessão foi a pior possível. Todas as fotos saíram pretas, não dava pra ver nada, eu achava que a máquina fazia tudo sozinho. Depois disso comecei a pesquisar sobre as configurações, foco e fui aprimorando. Nunca fiz nenhum curso, nada. Tem sido um aprendizado auto didata e Estou bem feliz com a evolução do meu trabalho.

GM: Quais foram os seus primeiros trabalhos?

WZ: Como eu era muito amigo do Ricardinho da Guarda, o Ricardo dos Santos, e ele conhecia muita gente do ramo do surfe, donos de revistas, marcas, etc. Logo com uns 6 meses que eu estava na fotografia ele conseguiu uma matéria sobre a Guarda na Revista Fluir.

Esquerda da Guarda do Embaú Line Up Guarda do Embaú

(Line up da Guarda do Embaú).

Na época fiquei feliz e inseguro ao mesmo tempo, pois ainda não me achava pronto para o desafio. Tinha apenas uma lente e precisava de vários tipos de fotos, mas no final deu tudo certo!

GM) Até hoje, teve algo que não gostou de fotografar?

WZ: Já teve sim. Eram umas fotos de um determinado produto, então tinha que ficar buscando uma maneira de realçar o produto e tal, por isso não curti. Prefiro a liberdade e a imprevisibilidade do surfe.

GM: Qual a sua foto favorita ou a que considera a foto da sua vida?

WZ: Tenho várias fotos que eu realmente gosto, mas tem uma de uma viagem pra Patagônia. Foi minha primeira viagem como fotógrafo e eu estava bem nervoso, porque já tínhamos fechado com a revista The Surfer’s Journal Brazil, que considero a mais irada do ramo. Porém, eu tinha pouca experiência e fiz de tudo pra corresponder as expectativas. A ideia da viagem era surfar e registrar uma onda na Patagônia Argentina que ninguém havia surfado. Na trip estavam o Ricardo dos Santos, Marco Giorgi, Nelson Pinto e o filmaker Mark Daniel. A ideia era acampar 2 semanas na frente do pico e torcer pra dar onda.

Trip Patagônia
(Trip para Patagônia).

Na ida, uma caminhada de várias horas num terreno molhado e mole, o que já não era fácil, carregando uma mochila de uns 30kg mais o equipamento, de repente começou a nevar e olhei a galera carregando prancha, mochila no meio daquele mato e a neve caindo, foi muito irado! Peguei a câmera e fiz essa foto que gosto bastante pelo contexto dela.

GM: Quem te inspira, seja nas lentes ou fora delas?

WZ: Tem muito fotógrafo sinistro hoje no mercado e é impossivel não se inspirar em caras como Pedro Tojal, Henrique Pinguin, Rafaski, entre os gringos o Johny Jungle, Rambo Estrada, Marcus Paladino entre outros. O Mar em si é uma grande fonte de inspiração, pela variedade de formas que ele tem, pela imprevisibilidade, as cores, o contraste, a luz.

Ian Gouveia Soup Bowl Barbados

(Ian Gouveia / Soup Bowl, Barbados).

Quando se consegue reproduzir na câmera o que passa pela mente, é quando a fotografia de verdade acontece.

GM: Tem alguma foto que ainda não fez e gostaria de fazer?

WZ: Gosto muito de fotos de ângulos diferentes, tipo de cima pra baixo. Tenho visto muita foto legal de Drone, quero explorar esse tipo de foto também assim que conseguir comprar.

Jean da Silva, Indonésia

(Jean da Silva, Indonésia).

GM: Quais imagens atualmente gosta mais de trabalhar?

WZ: Além de fotografar surfistas, gosto muito de olhar em volta pra ver se acho algo legal, pode ser o formato de uma nuvem, um passaro voando, a espuma deixada pela onda que passou, o lip da onda, estou sempre buscando fotos de lineup, a onda quebrando perfeita sem ninguém, existem outros elementos além dos surfistas que compoem uma boa foto.

Guarda do Embau

GM: Viagem que marcou sua carreira.

WZ: Tem 2 na verdade que me marcaram bastante, a primeira positivamente pois foi minha primeira viagem como fotógrafo que foi pra Patagônia, ali eu vi que realmente essa isso que eu queria ser. 

Patagonia

(Trip para Patagônia).

A segunda foi pro Uruguai em 2016, quando tive todo meu equipamento roubado na pousada onde estavamos dormindo, nesse dia pensei em desistir, mas graças a muita ajuda dos amigos e de muita gente e tambem com muito trabalho consegui recomeçar.

Trip para o Uruguai

(Trip para o Uruguai).

GM: Quais conselhos daria para quem está iniciando ou pensando em seguir a carreira de fotógrafo?

WZ: É sempre dificil começar algo novo, mas se você realmente quer isso você precisa de um começo, hoje tem muita informação na internet, sobre equipamentos, técnicas, mas a prática é a melhor escola, pra quem quer pular essa parte pode fazer um curso com profissionais como o Sebastian Rojas, Henrique Pinguim que ministram excelentes workshops. O mercado da fotografia de surfe no Brasil esta bem saturado, a cada dia uma dúzia de fotógrafos se arriscam nesse mercado, muitos acabam desistindo quando veem de perto a realidade e a desvalorização do profissional.

Inside Wave

É preciso ter em mente que não da pra ser mais um no meio da multidão, você precisa ser diferente, arriscar e não ter medo de errar, o mercado não aceita mais o mesmo, ele quer algo novo, se você puder entregar isso pode sobreviver "não viver” da fotografia.

GM) Quais são as atitudes e pensamentos “Green Minds” que todo fotógrafo deveria ter?

WZ: O fotógrafo de surfe tem o mar, a natureza como seu habitate natural, então nada mais justo que ele ser um representante na preservação desse habitat.

Marcela Witt

(Marcela Witt, Noronha).

Conscientizar as pessoas em volta sobre a importância de cuidar das praias, do Oceano é parte do trabalho do fotógrafo, recolher um plástico que está boiando do seu lado, ou na praia é o minimo que você deve fazer, já que a Natureza oferece tanto em troca. Repense! Recicle! Respeite! Obrigado!

 

Jean da Silva na Guarda do Embaú

(Jean da Silva, Guarda do Embaú).

  *Fotos: Arquivo pessoal William Zimmermann

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